Expedições, retornos e a busca de Henrique Avancini:
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Expedições, retornos e a busca de Henrique Avancini:
“O projeto Expedições nasceu durante o período em que estava aposentado. Entre trabalhos e compromissos, queria ir para lugares onde desejava conhecer pedalando e pelo prazer de me desafiar. Mas então veio o lado “responsável” de pensar que eu deveria aproveitar isso para fomentar a comunidade da bike. Desde então tem sido um projeto incrível, que eu curto muito realizar e mostrar locais incríveis para pedalar. O Brasil é um país com muitas possibilidades e fico feliz em mostrar uma pequena parte delas.” — Henrique Avancini
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Existe uma linha tênue que separa o ato de pedalar do ato de existir através da bicicleta. Quem se dedica ao ultraciclismo ou ao ciclismo de alta performance sabe que a jornada nunca é puramente física; ela é, sobretudo, uma construção de resiliência, histórias e conexão profunda com o território e com o próprio espírito.
Ao acompanhar as reflexões de Henrique Avancini ao ingressar no projeto da Swift Carbon Pro Cycling, encarando novos desafios internacionais como o Tour de Ruanda e provas de Gravel, fui fisgada por uma frase que ressoa fundo no meu peito:
"Construir tudo do zero é um risco, mas tem o poder da história. O que a gente tá tentando fazer tem uma chance pequena de ter êxito, mas tem um valor enorme." — Henrique Avancini
Essa busca por caminhos não óbvios, por aceitar o risco do desconforto em prol de algo maior, é a essência do nosso esporte. Avancini trocou a zona de conforto, de uma carreira individual impecável e consolidada no mountain bike, pelo desafio de reestruturar, capacitar e elevar o ciclismo de estrada e o gravel nacional. Ele aceitou o peso do julgamento externo e a responsabilidade de puxar a régua da performance no país.
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O propósito das Expedições: para além dos números, a busca interna
Essa mesma inquietação de sair do óbvio deu origem ao projeto Expedições, idealizado por Avancini. Inicialmente nascido da vontade de simplesmente estar em lugares marcantes e viver o ciclismo de forma pura sem as amarras do calendário tradicional de corridas, o projeto rapidamente se transformou em uma ferramenta poderosa de documentação, desafio e autodescoberta.
Como o próprio Avancini explica no episódio do Caminho da Fé, a essência do desafio sobre a bike é, na verdade, um catalisador para o crescimento pessoal e espiritual:
"O projeto das Expedições surgiu muito mais de uma vontade de me permitir ir a lugares para pedalar e buscar experiências e vivências... Toda vez que eu tentava buscar algo maior, uma conquista maior, eu me preparava de uma forma mais profunda. Tentava encontrar camadas dentro de mim que não conhecia. Isso não foi só uma evolução física, foi sempre uma evolução muito espiritual para mim." — Henrique Avancini
Mais do que atingir médias de velocidade ou cravar tempos em segmentos, o propósito maior do projeto reside em inspirar o ciclista comum e provar que a dor e a entrega no pedal são caminhos para nos colocar em nosso devido lugar de humildade:
"Toda vez que as pessoas sobem na bicicleta, toda vez que vão a algum lugar, seja ele qual for, é uma oportunidade de se conhecer (...). O esforço físico, a entrega, possibilita que você comece a se sentir fraco, vazio, sem forças, duvidar de si mesmo. E aí você vê que, no fim das contas, é muito pequeno perante a grandeza de Deus. O que importa é o que isso representou para você internamente e como foi a sua busca." — Henrique Avancini
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O Território: as pontas de pedra de Pancas e as raízes familiares
"As Expedições no Espírito Santo foram as mais legais que gravei, do ponto de vista pessoal. Foi uma forma especial de reviver a história da minha origem e também de conhecer mais sobre a infância do meu pai.” — Henrique Avancini
Para quem busca no ciclismo um reencontro com a história e com as origens, o conceito de encarar o "desafio não óbvio" ganha contornos monumentais nas formações rochosas do norte capixaba: Pancas.
Ao gravar o episódio do projeto Expedições em Pancas, Avancini foi em busca de resgate ancestral e memória de sangue em um visual cênico das maiores paredes de granito do país. A região carrega uma densidade histórica profunda para o atleta: foi no Espírito Santo que aportaram os primeiros imigrantes italianos, que eram da família Avancini, homens e mulheres que desbravaram o solo capixaba, fincaram raízes e moldaram a ética de trabalho e perseverança que passaria de geração em geração até chegar às pedaladas do campeão mundial.
Pedalar entre os pontões de Pancas é cortar uma paisagem monumental onde a imponência da natureza se cruza com a saga da imigração italiana e a história viva da família Avancini.
"Eu escolhi incluir este lugar dentro das Expedições porque Pancas não é apenas um dos cenários mais impressionantes do Brasil para pedalar; é onde a minha própria história começou a ser escrita no país. Estar aqui é homenagear os que vieram antes de mim e todos os ciclistas que encontram nessas estradas rurais um verdadeiro templo de superação." — Henrique Avancini
A Leitura da Subida por Avancini e as Métricas de Esforço
O trecho percorrido no segmento do Strava em Pancas exige leitura precisa e paciência mental. Avancini detalhou a dinâmica dessa escalada dura e técnica:
Início de transição e leitura de terreno: Trecho rústico de cascalho e asfalto oscilante, onde a tração exige constância na pedalada e controle aerodinâmico.
Trecho intermediário: As rampas começam a inclinar severamente à medida que se contornam os monumentais pontões de pedra, intercalando setores de força bruta com pequenas retomadas de ritmo.
O trecho final: Extremamente exigente, íngreme e exposto às variações do clima e ao calor característico do interior capixaba, deixando o atleta completamente exposto ao sofrimento acumulado.
Sobre a exigência física e técnica da região, Avancini destacou:
"É um esforço brutal e muito honesto. Pancas exige não só pernas para encarar as inclinações, mas um controle de tração e ritmo que machuca bastante, do primeiro ao último metro." — Henrique Avancini
Em sua passagem pelo segmento capixaba, Avancini cravou marcas impressionantes, mantendo números de potência dignos do topo do ciclismo mundial. Aproveitando o marco da expedição, ele reforçou a mensagem sobre longevidade e transparência no esporte:
"Deixa a mensagem aí para a nova geração do ciclismo (...). Eu provei que dava para ser um ciclista limpo de alto nível. Fui o ciclista brasileiro mais controlado da história, me mantive entre os cinco melhores do mundo por quatro temporadas. Então é possível. Basta buscar outros recursos — recursos lícitos —, desenvolver o corpo da forma certa, e isso faz com que dure mais." — Henrique Avancini
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Conectando performance, paixão e história
O ciclismo de longa distância e o alto rendimento se encontram exatamente nessa intersecção: a paixão como combustível, a performance como meio e a história como propósito.
Quando Avancini descreve a emoção de voltar às raízes capixabas e rodar pelas estradas de Pancas, onde os seus antepassados italianos construíram a vida, ele está falando sobre humanidade, afeto, pertencimento e propósito.
Assim como ele aceita o risco de "começar do zero" em um novo projeto para transformar o ciclismo brasileiro, nós, apaixonados pela pedalada, encaramos cada subida desafiadora, cada brevet e cada expedição de ultraciclismo como uma oportunidade de reescrever nossas próprias histórias. Afinal, como gosto sempre de dizer: “recomeçar quantas vezes forem necessárias”. Kudos, Avancini.
